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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

ONDE O MAR HABITA

Fonte: Revista Pessoa

Ler é cruzar mares onde correm diferentes correntes. Não adianta ler um livro de cada vez. Um livro já é em si o arrebentar de outros. Não adianta sequer focar apenas em livros, porque a leitura atravessa tudo o mais a que se atenta, como se tudo pudesse pender de suas linhas. Singrar O porto, de Leda Cartum, pode sangrar feridas antigas no convés do navio na viagem que encerra Perto do coração selvagem, ao se afastar daquela “zona onde as coisas têm forma fixa e arestas” e cada vez mais se afunda “na região líquida”, onde o corpo é “memória fresca, onde se moldam como pela primeira vez as sensações”, nas palavras de Clarice; posso involuntariamente, aportar nas tintas de Le port de Carquethuit, de Elstir, o pintor de Em busca do tempo perdido; fixar-me no branco perturbador em Moby Dick (mas este deixarei para comentar em outra ocasião) e até nos cardumes-móbiles esculpidos pelo carpinteiro Daniel Blake, no filme dirigido pelo inglês Ken Loach.

Ler assinala também outras direções, em sentidos não navegados: o desejo de ler o que ainda não li, por exemplo, a obra de Pascal Quignard, o autor das palavras que abrem o livro de Leda: “Ce qui reste de ce qui passe este comme l’autre monde du monde”. (E o que é uma epígrafe se não assinar a escritura de um terreno, autenticando-o como próprio, na partilha com o leitor?) O poeta Marcos Siscar assim traduz a citação: “o que resta daquilo que passa é como o outro mundo do mundo”.

Como sugere a epígrafe de Quignard, O porto trata do que restou depois de passado, e é exatamente por isso que em suas páginas tanto se repete que se esqueceu. Estamos nos domínios da lembrança, afinal. Recorto frases, soltando-as de seu contexto, entre aspas, uma vez que sempre se unem: “É preciso contar uma história”, “mas eu não me lembro”, “não sei lembrar”, mas também “não consigo me esquecer”, porque “pouca coisa me faz esquecer” e “aquilo que procuramos nos encontra”. E esse “nós” nos convoca, nós, seus leitores, a empreender também uma busca para fixar o que pode parecer solto na trama – ou seria para deixar desatar amarras muito tensas, quase imóveis, quando se tenta fixar em descrições certos momentos, fazendo delas os fios soltos que de fato são?

No porto, o que é esquecido “espera subaquático”. Está consequentemente submerso por distintas camadas d’água, sob os efeitos deste meio – líquido. Remeto mais uma vez ao romance de estreia de Clarice, sem qualquer intenção de identificar filiações, não é o caso, mas apenas para apontar esse lugar convergente nas obras, um onde “as palavras são seixos rolando no rio”, um onde o tempo vivido acumula-se e a sensação flutuante era “como a lembrança de uma casa em que se morou. Não da casa propriamente, mas da posição da casa dentro de si”. Onde o mar habita.

O porto conta de um lugar e de como ele se desloca na interioridade de quem narra, de quem arquiteta sua poesia nesta prosa de ruínas. Conta onde habita o mar, num sussurro, como se segredasse uma localização, desvendasse um esconderijo. Só que “Não existe um segredo e não vamos decifrar” dados e endereços em guia nenhum. Talvez, quem sabe, em uma noite de insônia, nas pontas dos dedos, ao tocar um onde as “rugas do lençol” se convertem em “fronteiras dos países”, na bela imagem pintada por Leda.

Caminha-se muito a céu aberto neste O porto, de norte a sul de um país (a Itália, ao mesmo tempo é dispensável nomear), mas nele vasculhamos cantos insondados desta casa que é o retorno, essa companhia que não desgruda aonde quer que se vá. O mar está em toda parte. Nas mochilas (antes pesadas e agora esvaziadas dos dias, o que nem sempre é sinônimo de leveza, mas de um vazio que ora se procura preencher ora adensar). Nas paredes. Nas sacadas. Nas gavetas. No meio-fio. Sob o tapete está o mar, revolto e varrido. Nas ruas. Nos telhados. (A propósito, tenho vontade de grifar cada substantivo que remete a lugar no livro, mas só assim que eu comprar canetas marca-texto de diferentes tons de azul). “São lugares grandes [...] que visitamos sozinhos [...] que nos frequentam nas noites”. (Para as referências às noites insones, quase uma catedral em vigília, eu deixaria as cores mais escuras).



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