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segunda-feira, 27 de março de 2017

POUCOS INSTANTES DE MORRER

O homem vai busca a guerra para matar os seus demônios ou ressuscitá-los.

Por mais corajoso que seja um homem, por mais ferro que tenha nos ossos, a guerra lhe plantará um medo, uma cisma, uma desconfiança de ser perseguido. A sempre companhia de vultos. O assovio de bala cortando o ar, aninhando ao crânio. Um homem pode até voltar de uma guerra. Mas nunca sem antes ter morrido um pouco nela.

Há também os que não vão à guerra. Não vão pelo fato de nelas já estarem: quer de nascença, em barrigas escondidas sob fardos de panos e úmidos porões. Quer por a guerra se colocar a caminho. Centopeia em marcha. Loba faminta. É o caso de Santiago Nasar, em ‘Crônica de uma morte anunciada’, livro fino e pesado de Gabriel García Márquez. Santiago Nasar está a poucos instantes de morrer.

Todos sabem do fim de Santiago Nasar: os inimigos, os amigos e os pássaros. Que fazem todos? O veem, o olham, o enxergam indo para a morte, derradeira guerra.

“As muitas pessoas, com quem se encontrou desde que saiu de casa às 6h05 até ser despedaçado como um porco uma hora depois, recordavam-no um bocado sonolento mas de bom humor, e a todas comentou de modo fortuito que fazia um dia lindo.”

E foi Santiago Nasar, que não era santo, nem diabo, para o abate. Boi manso e sonolento. Bovino.



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