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terça-feira, 11 de julho de 2017

A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel

Jardel Dias Cavalcanti

A editora Iluminuras acaba de publicar A noite de um iluminado, de Pedro Maciel. O que está em jogo nesse romance é uma questão vital para a literatura contemporânea. Como lidar com o espelho quebrado da realidade e sua multiplicação de cacos e dos ecos desses cacos? É essa a obsessão da literatura verdadeiramente contemporânea, a de descobrir uma linguagem que poderia exprimir algo próximo desse mundo de miríades de pequenos átomos quebrados. Construir uma espécie de vitral com o que sobrou de nossas certezas aos pedaços, como sugeriu o dramaturgo Gerald Thomas.

Libertado das limitações das construções lógicas, científicas e da análise factual, que muitas vezes toma a mente dos escritores preocupados em dar conta da “realidade”, a literatura de Pedro Maciel se projeta como possibilidade ou tentativa de uma nova e genuína expressividade. Sem a ambição da totalidade como guia, o narrador não ocupa mais o lugar do sujeito que emite enunciados fechados, como se fosse um portador da verdade. Se para nós essa forma de se relacionar com a existência é quase um pesadelo kafkiano, para Pedro Maciel é o contrário: “Para mim, o pesadelo é um oráculo”. (p. 115)

Se seu romance (essa palavra, no caso de A noite de um iluminado, não tem relação alguma com o tradicional romance) tem como guia as estrelas, o que ele capta delas não é nenhum norte, pois o que ele vê são “reflexos das estrelas que se extinguiram há milênios”. São esses reflexos que perpassam a mente do narrador em tantas interrogações quanto respostas ao longo do livro.

Não há dúvida de que a riqueza do romance de Pedro Maciel também deriva das experiências no campo das reflexões do narrador a respeito da própria insuficiência da nossa linguagem tradicional. À permutabilidade das experiências da vida, sua literatura responde se distanciando deliberadamente do chamado “discurso objetivo” e da chamada “realidade objetiva”. Para isso, coloca o narrador sempre em crise com a criação, consigo mesmo e com o leitor.

Se os fenômenos da realidade não podem ser abarcados como um todo, resta-lhe comungar com as indeterminações. E o livro se articula a partir de questões que vão se sobrepondo, como se um espelho quebrado pudesse, dentro de cada caco, reproduzir o próprio caos da quebradeira. Para isso, Maciel forja construções que resultam num manancial imagético surpreendente.



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