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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Poesia de Sérgio Medeiros evoca teatro e dilúvio de imagens

Poeta lança dois livros pela editora Iluminuras

Ronaldo Bressane*, Colaboração para o Estado

Parece uma peça de teatro – tem personagens, rubricas, vozes –, mas as falas antinaturalistas e superdescritivas nos mostram que não se trata de drama, ou, se há drama, este foi desossado. Parece um poema em prosa – as falas antinaturalistas descrevem paisagens naturais ou urbanas – mas logo percebemos que os desossados personagens são mesmo atores em uma peça na qual eles também não sabem muito bem o que representam (e saberemos nós?).

Parece uma sucessão de imagens – algumas prosaicas, outras horríveis, terceiras enigmáticas e diversas dialogando com poetas tão díspares quanto Lorde Byron, Haroldo de Campos, D’Annunzio ou John Cage – mas logo notamos que não se trata da inteligência artificial que controla alguma conta no Instagram, e sim talvez a própria Nuvem pensando o mundo através de imagens tão belas quanto desconexas. E sim, fora uma peça, um poema em prosa ou uma sucessão aleatória de imagens, parece se tratar também de um jogo entre personagens nomeados Idólatra 1, 2, 3, 4, 5...

“(...) Entre gaivotas iluminadas que passam voando na praia surge um lerdo avião tão branco quanto elas; nada se ouve embaixo na areia ensolarada exceto o grito estridente dos quero-queros (...) Vidros transparentes presos em pé numa carroceria veloz com uma lona meio solta por cima que tremula e se lança para trás com o som de chicotadas e depois sobe e vai de novo para trás como a crina longa de um cavalo galopando (...) As gaivotas que estão na areia catando farelos são fotografadas por um casal oriental descalço sem pressa de avançar sob o céu ameaçador de onde caem gotas (...) Na areia branca ao meio-dia dois urubus iguais se mantém lado a lado e um deles de repente bica o bico do outro como se lhe desse um beijo e ambos se encaram pacíficos enquanto a maré vai subindo aos solavancos (...) Na calha ensolarada cresce uma plantinha hirta com três folhas verdes e uma flor branca; é um dos lugares mais inóspitos da casa no verão que se prolonga ardido (...)”

Em maio de 2017, 136 mil fotos subiam para o Facebook a cada minuto, e, em uma estimativa conservadora, analistas apontam que subirão para a Nuvem cerca de um trilhão de imagens neste ano. Imagens que jamais serão vistas de novo – ou, pelo menos, não por seres humanos – e já existem inteligências artificiais reconfigurando o universo a partir das imagens captadas pelos humanos.



EDITORA ILUMINURAS - LTDA
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