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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

GEORGES BATAILLE E O PÉ, ESSE MEMBRO "BAIXO"

O corpo impossível, livro lançado em 2002, investiga o imaginário do corpo dilacerado, imagem subversiva e fragmentada que confronta o antropomorfismo. O livro foi recentemente republicado pela Iluminuras.

O dedão do pé, diz Bataille num texto de 1929, é “a parte mais humana do corpo do homem”. Ao contrário dos animais arborícolas, a espécie humana não depende dele para sua locomoção, o que determina “a diferença desse órgão com o elemento correspondente no macaco antropoide (chimpanzé, gorila, orangotango ou gibão)”. O homem move-se no solo sem precisar agarrar-se a eventuais galhos, prescindindo do dedão do pé em seus deslocamentos: por tal razão, a função primordial do pé humano consiste em “proporcionar uma base firme para essa postura ereta da qual o homem tanto se orgulha”.

O artigo Le gros orteil (O dedão do pé), publicado na Documents, propõe de imediato uma polarização entre os elementos altos e baixos que compõem a figura humana, fazendo contrastar as partes mais elevadas do corpo com a platitude dos pés. A primeira dessas oposições concentra-se nos distintos significados simbólicos atribuídos aos membros superiores e inferiores: os dedos das mãos, lembra Bataille, significam os atos hábeis e os caracteres firmes, enquanto os dedos dos pés são normalmente caracterizados pela estupidez e baixa idiotia.

Essa distinção inicial remete a uma tópica antiga, desenvolvida por vários filósofos. Aristóteles, por exemplo, afirma que a mão possibilitou ao homem tornar-se senhor da natureza, pois “foi à criatura capaz de adquirir o maior número de técnicas que a natureza dotou do utensílio efetivamente mais útil, a mão”. Seu tratado sobre a geração dos animais descreve minuciosamente esse órgão para demonstrar como ele se distingue da pata dos mamíferos: nos macacos, os dedos e as unhas têm aspecto mais bestial porque eles servem-se de seus membros inferiores da mesma forma como dos superiores. Assim, a mão dos símios “não existe em estado puro”, pois, sendo “da natureza do homem manter-se ereto”, a verdadeira função do órgão não consiste em suportar o peso do corpo mas, sim, em agarrar e segurar.



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