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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Poeta e antropólogo recria página de um índio xavante

Sérgio Medeiros recebeu rabiscos de Jerônimo Tsawé e transforma esse presente no livro 'Trio Pagão'

Rosario Lázaro Igoa*, Especial para O Estado

Com Trio Pagão, o poeta sul-mato-grossense Sérgio Medeiros, 59 anos, acelera o ritmo de experimentação na sua obra. Mas tal aceleração, paradoxalmente, é mais uma poética da atenção, que aposta nas intertextualidades irreverentes (com a própria obra e a alheia), no trânsito de seres vivos entre reinos e nas paisagens não monolíticas. Longe de uma concepção essencialista e contemplativa da natureza, os três poemas extensos reunidos no livro põem em xeque o mais humano do humano, e, claro, a natureza em si.

A primeira parte do livro, Esculturas de Caligrafias, começa no limiar da palavra. Medeiros redescobre a folha de caderno com rabiscos que o índio xavante Jerônimo Tsawé lhe entregou nos anos 1980 e que já foi a capa do seu livro Figurantes (2011). Mas esses traços confusos logo se transformam em ocasião para a simbiose, a transmutação. Ou, como sugere o crítico argentino Gonzalo Aguilar no ensaio que antecede o poema, para a “possessão”. Possuída então por Tsawé, a escrita de Medeiros consegue, ao longo de vinte e três provas, um efeito esclarecedor. Aos nossos olhos, surge, no amontoamento de linhas (por vezes duplas), uma terceira escrita. Irrompe assim a impressão de que alguma coisa está sendo sugerida: só é preciso sucumbir ao acúmulo e à redistribuição.



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