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sábado, 23 de janeiro de 2010

Uma versão da história

Dom Casmurro torna-se um dos romances mais sofisticados da literatura ocidental justo por reunir estas duas qualidades que se dirigem, ao mesmo tempo, ao leitor e ao artista. O interessante é que Dom Casmurro não é sequer um romance – cujo rótulo desaparece completamente – mas uma versão da história, talvez uma versão do romance, embora sua origem esteja numa peça de teatro de Shakespeare. Todos sabem de cor: Otelo. A história, segundo Machado, não contempla Capitu – trata-se de uma personagem ausente, no sentido da sua manifestação como mulher e personagem, aquela que nem pode falar – uma verdadeira personagem de criação indireta, conforme analiso no meu livro A preparação do escritor (Iluminuras, 2009). Ou seja, ela só existe na cabeça do personagem Bentinho – também narrador – e nunca fora dela. Ela é criada por ele. Tão “nunca fora dela” que o próprio título da obra seduz o leitor, mas não corresponde ao conteúdo literário. Ou seja, chama-se Dom Casmurro apenas para homenagear o poeta que não gostou do narrador, o poeta abusado do trem.Essa é, sem dúvida, a primeira grande sofisticação de Machado: colocar um título que não tem nada com o romance – não existia dom Casmurro algum no momento em que a história se desenvolve – seduzindo e driblando o leitor porque, apesar da gravidade da história e da sua personagem, “não achei melhor título para a minha narração”. Não? E por quê? “Tudo por estar cochilando”. Não é aí que ele parece dizer que cochilou a vida inteira e que, por isso mesmo, não percebeu com clareza os movimentos de Capitu? E por que cochilou não pode dar ao livro o verdadeiro título depois utilizado por Fernando Sabino: O amor de Capitu. Percebam bem a estratégia: tirar dos olhos do leitor o nome da mulher amada e polêmica, para que o leitor não se fixasse nele, de imediato.Então, se não há um romance, mas uma versão do romance, porque só é revelado aquilo que interessa a Bentinho, a sofisticação é escondida pela simplicidade. De tamanha simplicidade que o narrador anuncia que vai mentir e o leitor nem se preocupa com a armadilha. E se não há um romance, mas uma versão, fugindo das regras tradicionais da narrativa, pode-se concluir mesmo que o romance morreu. Assim como morreu para Clarice Lispector ou para João Gilberto Noll, ou para Sérgio Sant'Anna, ou para Cristóvão Tezza, por exemplo. Portanto, se considerarmos as técnicas tradicionais, podemos confirmar a morte do romance, embora ele continue vivo conforme a classificação do autor ou dos autores. Sem esquecer a frase popular: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. (Raimundo Carrero).*Autor de, entre outros, A minha alma é irmã de Deus (Record), que recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, em 2009; e de Somos pedras que se consomem (Iluminuras), Prêmio Jabuti, em 2000.



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