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POESIA

MARIO DE SÁ CARNEIRO

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Mário de Sá-Carneiro é — em minha opinião — o maior poeta de língua portuguesa deste século. A sentença pode parecer injusta diante da obra de um Fernando Pessoa. Ocorre que Mário de Sá-Carneiro tornou-se, com a precariedade dos estudos literários no âmbito luso-brasileiro, a face menos visível de Pessoa.

Os versos Hoje, falho de ti, sou dois a sós, escritos por Pessoa sob o impacto da morte do amigo, autorizam esta interpretação. Sá-Carneiro não é mais um heterônimo de Pessoa. É o heterônimo de Pessoa. Aquele que inaugurou — no Grand Hôtel du Globe — na rue des Écoles, em Paris, a modernidade da língua portuguesa. Ao vivo e em primeira mão tomou, aos 22 anos, contato com o Picasso de Les Demoiselles d'Avignon e com as ideias futuristas de Marinetti.

 Qualquer juízo emitido é uma redução diante da obra de Sá-Carneiro. Mas, não se pode deixar de anotar que sua poesia é uma síntese pessoal e crítica da obra de Cesário Verde e Camilo Pessanha em confronto com Mallermé, os simbolistas franceses, Picasso e o futurismo italiano.

A efervescência cosmopolita de Paris ("E a noite cresce agora a desabar catedrais"), a morte, a loucura, o diálogo com Pessoa, de quem Sá-Carneiro foi seguramente um mestre ao vivo, a bissexualidade, a vida nos cafés, as viagens a Barcelona, a prosa e o verso fazem de Sá-Carneiro uma espécie de Rimbaud da língua portuguesa: "Seja enfim a minha vida/Tarada de ócios e lua/Vida de café e rua/dolorosa, suspendida".

É, portanto, mais do que oportuno o resgate — para o cenário contemporâneo brasileiro — da obra deste mestre da modernidade, feito por um poeta e estudioso dos assuntos luso-brasileiros como Fernando Paixão.

Régis Bonvicino

Se há uma personagem na poesia de Sá-Carneiro, esta Oscila do dandy ao clown, pendendo então para a marionete, para o espantalho e, enfim, para uma geringonça — para a caranguejola pronta a se desconjuntar. A blague, que porventura as recobre, compete todavia com uma dor maior: a da morte do sujeito que, sem poder mais viver em si, se infiltra em tudo, volatizando-se em cada estilhaço do mundo ruído. Assim pulverizado, ele se resta apenas como um lugar, o do deslocamento, do destrambelho, do descompasso, do intermédio. É um sujeito em estado fantasmático.

Nesse sentido e sem mistificação alguma, Sá-Carneiro expõe freneticamente a antessala, o cadinho, a matriz e, sobretudo, o espetáculo crispado e espasmódico do homem fraccionado do Orpheu — do sujeito moderno. Sua obra pode ser o andaime que alça e explica o eclodir da heteronímia, porque dela nos revela a origem factual e social. E literária. O elenco de excessos do simbolismo-decadentismo deságua nela com seus luxos, suntuosidades, opulências, apoteoses, ornamentos e... ócio.

Elegância e histrionice se nutrem — oh Esfinge Gorda!—  da mesma teatralidade hiperbólica que, por último, se compraz com fanfarras, estandartes, lantejoulas e carrosséis sem porto. Mas o trânsito por dentro do excessivo — que é também superpovoamento dos sentidos, sinestesia elevada ao paroxismo, guinada para pampsiquismo — descobre, naquilo que transborda e se derrama, não só o labiríntico, mas o incisivo oco. Convertido em palhaço, o sujeito escorrega na tômbola, no esgar, nas piruetas, enfim, no malabarismo de uma sobrevida feita apenas de mínguas.

Mas como Sá-Carneiro consegue, através do decadentismo, o prodígio de inaugurar uma cena que ultrapassa os oitocentos? Nele, dois estilos estão em litígio: a alegoria, a tradução bem comportada da desordem em estados de alma, convive conflituosa com uma gramática em prestidigitação — insurreições no regime das palavras, sintaxe em pânico, linguagem picada por um alucinógeno, em altíssima temperatura, a transtornar toda a plástica do real; o que é já passe para o surrealismo.

Se há uma História na poesia de Sá-Carneiro, esta parece ser a do emigrado, a do transgressor de aléns, a do navegador português do século XX na conquista de um conhecimento ainda não formulado, no descobrimento de um novo Império — desta vez, astral.

Maria Lúcia Dal Farra

Fernando Paixão é poeta e editor, de nacionalidade portuguesa. Publicou Fogos dos Rios (Brasiliense, 1989) e 25 Azulejos (lluminuras, 1994). Defendeu tese na Unicamp (1990) sobre a poesia de Sá-Carneiro, em texto ainda inédito. 

Autor(a) Mário de Sá-Carneiro
Organização Fernando Paixão
Nº de páginas 248
ISBN 85-85219-99-8
Formato 14x21 cm

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