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TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO, AS

GUSTAVE FLAUBERT

  • R$ 79,00

Inclui textos de Paul Valéry, Contador Borges Denis Bruza Molino com 42 reproduções das litografias de Odilon Redon

Pode-se ler este livro como uma alegoria: o deserto em que vagueia o anacoreta, por entre penhascos e areia, tudo povoado por fantasmagorias e alucinações, é também o da literatura, aquele espaço literário, já esvaziado, repleto de tentações, e que Maurice Blanchot, num gesto de pura e absoluta genialidade, soube ler, de modo tão preciso quanto complexo, como etapa decisiva na formação da chamada literatura moderna.

Alias, seria toda uma outra e longa história pensar no deserto como espaço formador da própria literatura: neste caso, deserto é, ou pode ser, sinônimo de recusa e de negatividade, uma das categorias fundamentais, como se sabe, do moderno em literatura e nas artes.

É um arco tenso: desde o que há de desértico na Mancha, de Cervantes e do comovente Cavaleiro da Triste Figura, até aquele dos tártaros de Buzatti. Ou aquele capaz de provocar o aparecimento de um pomar às avessas, como está no João Cabral de Melo Neto de Psicologia da composição.

A tensão do arco se desfaz, no entanto, pela entrega às tentações da positividade que são os significados sem risco: a aceitação da literatura que diz, com certeza, algumas coisas já consumidas pela tradição literária.

Flaubert sabia disso e a primeira grande tentação era aquela do conhecimento enciclopédico que viria eliminar o deserto por uma acumulação impiedosa de livros e saberes cuja maior crítica ele haveria de realizar em Bouvart e Pécouchet.

Este livro deixa ver, de modo incipiente, como cabe a obras iniciais, traços dessa resistência e, por que não dizer, dessa luta sobre-humana em prol da recusa e do risco.

Não é a isso que se chama de flaubertiano, por excelência, a essa luta pelo esvaziamento de um espaço que deve ser assumido pelo rigor quase suicida da linguagem?

A história foi contada em detalhes por esse admirável Maxime du Camp no quinto capítulo de suas ricas Souvenirs littéraires (1822-1894), intitulado precisamente “La tentation de Saint Antoine”.

Gustave Flaubert convocara dois amigos, Maxime e o poeta Louis Bouilhet, para ouvir, sem direito a interrupções, a leitura do novo livro que ele terminara de escrever, depois de anos de trabalhos que envolviam pesquisas históricas e religiosas volumosas e rigores estilísticos. Trabalhos tão exigentes que chegaram a por em perigo a saúde do jovem escritor, o que motivará a viagem que fará, em seguida, ao Oriente.

Reuniram-se no retiro flaubertiano de Croisset e, com paciência e contenção, submeteram-se à audição do longo texto.

“A leitura, diz Du Camp, durou trinta e duas horas; durante quatro dias ele leu, sem esmorecer, de meio-dia a quatro horas, de oito horas a meia-noite. Foi estabelecido que nos reservaríamos nossa opinião e que não a expressaríamos senão depois de ter ouvido a obra inteira.”

O veredito acerca do manuscrito foi anunciado por Louis Bouilhet e ele foi arrasador: “Pensamos que é preciso lançá-lo ao fogo e nunca mais voltar a falar dele.”

Os argumentos para um julgamento tão radical são analisados pelo próprio Du Camp e eles se resumem em que não podiam entender uma narrativa que fugia tão completamente dos princípios da verossimilhança realista, terminando por dificultar a compreensão e o entendimento. Ou, como diz Du Camp: “Sob o pretexto de levar o romantismo ao extremo, Flaubert, sem que ele disso duvidasse, voltava atrás, voltava ao abade Reynal, a Marmontel, a Bitaubé mesmo, e caía na difusão.”

Muito mais tarde, Flaubert fará uma revisão do texto. Não antes de tentar outras obras mais de acordo com as críticas dos dois amigos, como Madame Bovary e Salambô. Precisamente aquelas obras que Paul Valéry, no texto usado aqui como prefácio, afirma oferecer menos encantos do que as Tentações...

É a obra refeita que agora se lê nesta edição, enriquecida pelas obras de Odilon Redon e pelos ensaios de Paul Valéry, Contador Borges e Denis Bruza Molino, assim como pela competente tradução de Luís de Lima, bem na linha de Novembro, do mesmo autor, publicado pela Iluminuras.

 

JOÃO ALEXANDRE BARBOSA

 

Autor(a) Gustave Flaubert
Tradutor(a) Luís Lima
Ilustrador Odilon Redon
Nº de páginas 256
ISBN 978-6-555-19072-4
Formato 15,5x22,5 cm

Ilustradores

ODILON REDON

Tradutores

Luís de Lima

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