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PARTE DA PAISAGEM

ADRIANA LISBOA

  • R$ 45,00


As mãos afundam na terra:

nação de bichos úmidos,

cortejo cego de nomes desfeitos,

decompostos, recompostos —

entreposto escuro de verbos

táteis, onde os mortos sufocam

no jubilo dos novos vivos:

 

tudo são flores.

 

 

Recolhimento, concentração, precipitação. Ou, pelo contrário, exposição, soltura e dispersão. Nestes poemas, como num espasmo, a abertura inquieta desemboca muitas vezes no espanto de quem subitamente para, sabendo que as palavras serão os resíduos, apenas, do quase indizível. É um mundo de quases, que os leitores já terão aprendido a apreciar nas vozes que guiam os personagens de Adriana Lisboa, alheios aos gestos heroicos e afeitos à elaboração vasta, porém breve, da música que soa ao fundo, tanto na prosa como na poesia. Na recusa da expressão brilhante, um discreto fio melancólico avança e faz do poema lugar de espera e escuta: espaço do envelhecimento, não fosse um outro fio de vida que se enlaça àquele, teimando em recordar que, quando bem quisermos, podemos saltar do vagão, aliviando-nos do peso inominável do fim da viagem. Aí, justamente, aportaremos numa espécie de Pasárgada às avessas, lugar onde o rei não é rei, e tampouco sei se terei as mulheres que quero. Paisagem, em suma, incapaz de prometer outra vida; lugar de passagem, percurso que a delicadeza da poesia insiste em propor, mostrando tão só o que existe, em sua face ora sombria, ora insuspeitadamente luminosa. O que resta, restará sem adornos ou circunspeção, só vida gratuita. Não se trata da delicadeza não-me-toques, da afetação de quem mal resvala no mundo. Na poesia de Adriana Lisboa, delicado é o elemento que decantou, após vagar por uma solução em que o desvio e os choques levaram a uma nova e inesperada composição. Mas, ainda aqui, não se fala da delicadeza ostentatória de um cristal definitivo, ou do sólido que podemos ver, apalpar e admirar. Em Parte da paisagem, o que se projeta é o instável e delicado equilíbrio em que corpo e alma, juntos, descobrem-se a ponto de cair.

 

Pedro Meira Monteiro

Universidade de Princeton


Autor(a) Adriana Lisboa
Nº de páginas 120
ISBN 978-85-7321-441-3
Formato 15x21cm
Peso 169 g

Autores

ADRIANA LISBOA

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